Sobre o Museu dos Relacionamentos Fracassados em Berlim

outubro 31, 2007 at 4:14 pm Deixe um comentário

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Essa reportagem saiu na Folha de S.Paulo do dia 24/10/2007. A fonte da matéria é o jornal alemão Der Spiegel.

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2007/10/24/ult2682u574.jhtm

O que um machado, algemas de pelúcia cor de rosa, um ursinho e um vestido de casamento têm em comum? Todos fazem parte de uma exibição dedicada aos relacionamentos que desmoronaram, que está agora em Berlim

Siobhán Dowling

Em Berlim

No empoeirado andar superiorde um antigo prédio na Berlim Oriental, a coleção está crescendo a cada semana. À primeira vista, parece que alguém reuniu os itens que restaram de um mercado de pulgas. Uma bicicleta está pendurada em uma parede, enquanto anéis, ursinhos de pelúcia, meias, algemas cor de rosa e vários ornamentos estão em exibição.

Por mais indesejada que seja, a tralha está longe de ser detritos sem sentido. Cada um dos objetos, muitos deles sem graça, em certo momento significaram muito para alguém. São os restos de casos de amor que não funcionaram.

Os objetos pertencem ao “Museu de Relacionamentos Fracassados”, uma exibição itinerante que pede às pessoas para doarem lembranças de seus relacionamentos, desde paixões passageiras até divórcios dolorosos. Originada na Croácia, a mostra já passou por Sarajevo, Maribor e Ljubljana e agora conta com mais de 200 objetos. Zvnonimir Dobrovic está organizando a mostra de Berlim no centro de artes Tacheles, uma antiga ocupação de seis andares no coração da cidade. “Os berlinenses já doaram 20 novos objetos”, disse ao Spiegel Online, inclusive um vestido de casamento e um machado usado para destruir a mobília de uma ex-namorada.

Dobrovic explica que a idéia nasceu quando dois artistas de Zagreb, Olinka Vistica e Drazen Grubisic, romperam e quiseram fazer algo criativo com os vestígios de seu relacionamento. “Eles reuniram todos seus objetos e depois pediram os dos amigos”, explica. “A imprensa interessou-se e as pessoas começaram a doar itens.” Logo, os artistas tinham um trailer cheio de objetos, e o Museu de Relacionamentos Fracassados nasceu.

“Desenvolvemos a idéia de um museu onde pudéssemos colocar os objetos, nos vermos livres deles e cortar a relação com aquela energia, mas ao mesmo tempo mantê-los e preservá-los do esquecimento”, disse a co-fundadora Vistica à Reuters.

A mostra deve funcionar como uma espécie de terapia, para que, em vez de destruir objetos, eles possam ser removidos ao museu para “convalescer” e participar de uma “história coletiva emocional”.

Talvez a mostra tenha virado uma bola de neve porque revela como o tema do amor perdido pode ser universal. “Quanto mais pessoal, maior o sucesso, acho”, disse Vistica à Reuters. “A resposta das pessoas realmente prova isso. Elas reconheceram (a mostra) como algo sincero.”

O efeito catártico é evidente em algumas das explicações que acompanham os objetos exibidos. Uma prótese de um veterano de guerra que se apaixonou por sua assistente social é descrito como tendo “agüentado mais que nosso amor: era feito de material melhor”. Outro objeto é uma caneta que foi usada para escrever “bobagens românticas que ele não merecia”. Nem tudo é tristeza, porém. Um amante virtual em Sarajevo contribuiu com uma cueca samba-canção que recebeu de uma namorada virtual que ele nunca encontrou ao vivo. Por isso, justifica, “eles nunca puderam tirá-la”.

Os artistas também têm um site onde quem está de coração partido pode guardar mensagens de SMS, fotografias e e-mails de três meses a quatro anos, e se quiserem, compartilhar as comunicações com o resto do mundo.

Quanto aos objetos, depois de Berlim, as próximas paradas serão Belgrado, Skopje e Estocolmo, e há planos de partir para o resto do mundo com possíveis exibições em Tóquio, Nova York e São Paulo.

MACHADO – Berlim, 1995: Ela foi a primeira mulher que eu deixei mudar-se para minha casa. Todos os meus amigos achavam que eu precisava aprender a deixar as pessoas se aproximarem mais. Depois de alguns meses, tive uma oportunidade de viajar para os EUA. Ela não podia vir comigo. No aeroporto, dissemos adeus com lágrimas, com garantias dela que não sobreviveria três semanas sem mim. Quando voltei, após as três semanas, ela disse: “Apaixonei-me por outra. Conheci-a a quatro dias, mas sei que ela me dá tudo que você não pode me dar.”Eu a mandei sair da casa. Ela foi imediatamente viajar com sua nova namorada, enquanto sua mobília ficou comigo. Sem saber o que fazer com minha raiva, comprei esse machado para aliviar a tensão e dar a ela ao menos um pouco do sentimento de perda. Comecei a destruir um móvel por dia. Quanto mais o quarto dela se enchia com pedaços dos móveis, mais eu me sentia melhor. Duas semanas depois de ser mandada embora, ela veio pegar a mobília. Estava organizada em pequenas pilhas e fragmentos de madeira.
VESTIDO DE CASAMENTO – Berlim, 1994-1997: Nosso casamento foi na Grécia e no Japão, quando tínhamos pouco mais que 20 anos. Usei o vestido no dia 20 de agosto de 1994, em Kavala, Grécia… Nosso objetivo era um lar feliz com muitos filhos. Mas a mãe natureza não ajudou, e os filhos não poderiam esperar até o fim dos estudos? Era muito importante para ele, um jovem muito feliz no início, ser um jovem pai… Lentamente a página virou: a impaciência pesou na balança.
PRÓTESE – Zagreb, 1992: Em um hospital de Zagreb conheci uma assistente social bela, jovem e ambiciosa do Ministério da Defesa. Quando ela me ajudou a conseguir certos materiais que eu precisava para minha prótese, pois era inválido de guerra, o amor nasceu. O membro protético durou mais do que nosso amor. Era feito de material melhor!
CAFETEIRA – Ljubljana, 2001-2006: Dei a cafeteira a ele, que o queria tanto. Logo, entretanto, ele percebeu que não era perfeita, pois sempre derramava café na mesa ao servir. Quando eu entendi que eu também não era perfeita para ele, meu amor não perfeito, que foi muito derramado, desapareceu.Em sua raiva, deixou todas as coisas que eu tinha dado na frente da minha porta, dentre elas esta cafeteira. Muitas vezes eu fiz café nela como lembrança dele. Fiz café quando ele apareceu para uma visita. Como eu gostaria de romper esse círculo interminável, decidi doá-la ao museu.


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