Sobre as correspondências por debaixo da porta

outubro 23, 2007 at 2:23 am Deixe um comentário

Meu prédio tem um novo método de entrega de correspondência. Todo o dia, o porteiro separa qualquer tipo de envelope e ao invés de entregar na hora da entrada ou da saída dos moradores, os enfia por debaixo da porta. Já esqueci o montante de vezes que acreditando ser algum tipo de carta-anônima abri envelopes em branco que só continham descontos de 10% para as pizzarias da região. Considerando que eu moro só e não sou tão fã de pizza acaba não sendo vantagem comprar uma redonda gigante para ganhar uma garrafa de Coca-cola de 2 litros.

Mas não era isso que eu ia falar, o fato é que esse novo hábito do condôminio já conseguiu me impedir de entrar em casa várias vezes pela pilha de cartas estacionadas na soleira da porta e em outras muitas me assustou. Devemos convir que ouvir passos por detrás da porta faz soar em mim o alarme anti-arrastão de edifícios tão em moda na vida moderna das grandes cidades – se bem que meu prédio não é chique o suficiente para ser notado.

Segunda-feira, 22 de outubro, 23h20. Ao entrar em casa depois de um dia de grandes encontros – sim, uma mulher moderna, solteira, de bem com a vida e desempregada passeia em dias de chuva para visitar pessoas doentes, fazer contatos de negócios, observar o que tem de bom na mostra de cinema, esperar a chuva passar na livraria e tomar 300ml de café em menos de 20 minutos – olho para o chão e além da conta de luz dou de cara com um envelope branco escrito com letra conhecida. Olho para ter certeza de que não era no apartamento errado, afinal de contas letras podem ser confundidas, mas não. Meu nome constava no lugar do destinatário, o endereço correto e o cep também. Abro com as mãos trêmulas e de dentro saco um papel dobrado em branco. Nele leio:

“Pedaço da corda da Sta. retirado na hora do puxa-puxa final. Círio* 2007. Faça seu pedido.”

Sem acreditar, abri o papel e dentro encontrei um pedaço da corda e duas fitas bentas da Santa. Em cada uma estava escrito:

“Lembrança de Nossa Senhora de Nazaré. Padroeira dos Paraenses. Faça três pedidos.”

Comecei a rir ao pensar que alguém se meteu no meio de uma multidão e pegou um pedaço de corda pensando em mim. Êta vida. Mãe é mãe e olha que eu tenho duas. Mas agora só consigo pensar em uma coisa. O que será que eu vou pedir ?

No mais só posso dizer: “Bendito seja o porteiro e algumas cartas inesperadas que nos fazem gargalhar em uma noite de chuva”.

011.jpg * Tradicionalmente no segundo domingo de outubro, milhares de fiéis tomam conta das ruas de Belém, numa grande caminhada em devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Emocionados, os romeiros fazem um percurso de 3,6 quilômetros, da Catedral de Belém até a Praça Santuário, onde a imagem da Virgem fica exposta para veneração dos fiéis durante 15 dias. A corda puxa a berlinda da Santa e fica em algum lugar no meio da multidão.

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Sobre a espera Sobre os engasgos na garganta

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